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16 de Setembro de 2019

Porque ser transexual não é uma escolha

Naomi Maratea, Advogado
Publicado por Naomi Maratea
há 8 meses


Alguns dizem que brinquedo e brincadeira não tem gênero, que a tradição de “meninos brincarem de lutinha e meninas brincarem de boneca” é uma imposição social e que, na verdade, a tradição não existiria se a sociedade não tivesse se desenvolvido de forma “machista” e “cis-heteronormativa”*, que subconscientemente obrigasse as meninas a “treinar para ser mãe”, ao passo que os meninos são livres para brincar de formas físicas. De acordo com estudos de Harvard, as coisas não são bem assim.

Um estudo conduzido por Richard Wrangham, da Universidade de Harvard, sugeriu que meninas estão biologicamente programadas para sentirem atração por brincadeiras que lembram à maternidade, ao passo que os meninos estão biologicamente programados para gostarem de brincadeiras físicas e energéticas.

Os cientistas chegaram a essa conclusão após 14 anos de observação aos chimpanzés da comunidade Kanyawara de chimpanzés em Kibale National Park, em Uganda. Foi observado, ao longo desse tempo, que os filhotes fêmeas preferem brincadeiras mais suaves e os machos as mais explosivas.

Mesmo quando ambos os sexos tinham apenas o mesmo “brinquedo”: um pedaço de pau, os machos o usavam para explorar ambientes, enfiando-o em buracos onde poderia haver água ou mel, ou usavam como arma para brincadeiras de combate, já as fêmeas carregavam o pau como se fosse um bebê e até o colocavam para dormir. Em outro tipo de experiência, quando foram oferecidos brinquedos de humanos para os chimpanzés, as fêmeas preferiram bonecas, ao passo que os machos preferiram caminhõezinhos.

A partir disso, forma-se a reflexão: se o gosto por brincadeiras de criança são, majoritariamente, definidas pela genética (lembrando que haverá fatores externos, históricos e sociais que podem influenciar tais escolhas), e se a criança, quando transexual, muitas vezes apresenta predileção pelo brinquedo do gênero ao qual ela virá a se identificar, pode-se disso concluir, com base nos dados apresentados, a teoria de que a transexualidade está escrita na nossa genética, e pouco pode a “criação”, a “sociedade” ou até a “globo” influenciar alguém para que se torne ou deixe de se tornar trans. Transexualidade não é uma escolha.

Meninos brincam sim de boneca, e meninas de carrinho, eventualmente e se por isso se interessarem, mas o comportamento do gênero masculino e feminino em um quadro geral é resultado de fenômenos genéticos. Sendo isso verdade, nada mais lógico do que assumir que quando o indivíduo apresenta um comportamento distinto daquele geneticamente determinado, ou seja, a transexualidade, isso é pela ação de outro fenômeno genético igualmente válido.

A própria comunidade cientifica sugere que existam diferenças anatômicas entre cérebros transexuais e não transexuais.

Outro argumento que corrobora com a teoria de que a transexualidade é genéticamente esperada é o “hermafroditismo sequencial”: Quando em um grupo de peixes dourados, o macho alfa morre e não há macho para substituí-lo, a fêmea alfa se transforma em biologicamente macho, com todas as funções reprodutoras de um macho, e passa a liderar o grupo. Essa mudança só é possível pois a reprodução desses animais ocorre externamente: no processo do macho e da fêmea lançarem seus gametas na água e, dessa forma, surgir a fecundação, ou seja, nenhum desses animais possui órgão genital definido. O mesmo acontece com sapos e outros animais aquáticos.

Quando a evolução tirou o ser vivo de dentro d’água, com os primeiros animais terrestres e vertebrados, foi necessário que em seus corpos aparecesse uma estrutura que proporcionasse a reprodução interna (já que a externa não era mais possível): então surgiram os órgãos sexuais.

Devido à impossibilidade da transformação natural dos órgãos sexuais, o hermafroditismo sequencial parou de acontecer nas espécies terrestres, entretanto, o gene para tal fenômeno permanece no material genético das espécies que são resultado da evolução proveniente da água, dentre esses, o ser humano.

Levando em conta os fatos acima mencionados, demonstra-se que a transexualidade não só é biológica como esperada em uma população humana.

É verdade que não existe um gene que, ao ser observado, denuncia que o indivíduo é trans, entretanto, a própria “transição de gênero” está presente no material genético do ser humano, e, nada mais é do que completamente natural.

A ciência ainda tem um longo caminho a percorrer no estudo da transexualidade no ser humano, mas se há algo que a ciência já provou que é certeiro, é que ser transexual não é uma escolha.

Fontes:

1 — PIRULA. Homessexualidade não é uma escolha!. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=Gn0R-gb9SMc&t=236s>. Acesso em 21 de maio de 2018.

2 — PODCAST NARUHODO. O que leva uma pessoa a ser transgênero?. Disponível em <http://www.b9.com.br/75468/naruhodo-84oque-leva-uma-pessoa-ser-transgenero/>. Acesso em 21 de maio de 2018.

3 — V. LUNA DE ATHAYDE, Amanda. Transexualismo Masculino. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0004-27302001000400014&script=sci_arttext>. Acesso em 21 de maio de 2018.

4 — DAILY MAIL REPORTER. Why chimp’s stick babies prove it’s natural for girls to play with dolls and boys to love guns. Disponível em <http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1340211/Why-natural-girls-play-dolls-boys-love-guns.h.... Acesso em 21 de Maio de 2018.

Glossário:

*cis-heteronormativo: Que segue o padrão cisgênero** e heterosexual

**cisgênero: O oposto de transexual. Aquele que se identifica com o gênero ao qual foi assinalado ao nascer.

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